Conhecendo a mitologia Hindu
Assim como a cultura, a mitologia hindu é vasta e uma das mais antigas do mundo. Seus primeiros mitos remontam a, talvez, 8000 anos e nasceram numa região conhecida como Vale do Índus, onde atualmente temos o Paquistão. Por todos esses milênios, suas lendas foram sendo fiadas, tingidas, entrelaçadas com outras lendas de culturas e povos diferentes até chegarem aos nossos dias ainda cheias de vida e colorido.
Desde que os primeiros humanos fizeram uma fogueira e sentaram-se ao redor dela, a mitologia começou a existir. Contar histórias sempre foi um dos principais passatempo dos seres humanos. Ainda hoje repetimos histórias como Branca de Neve, A Cigarra e a Formiga e Pinóquio diante dos olhos extasiados de nossas crianças. E vamos tantas vezes ao cinema em busca de ouvir uma nova história. Portanto, os mitos são personificações de nossas próprias energias e fazem parte da nossa vida num grau muito mais elevado do que podemos imaginar.
Quando saudamos Ganesha, o destruidor de obstáculos, estamos movimentando nosso próprio poder de remover o que impede nossa caminhada. Ao meditarmos em Krishna, conectamos com a beleza e alegria que vive em nós. Se nos sintonizamos com Lakshmi estamos despertando nossa consciência de prosperidade e abundância.
Os mitos falam dos homens e, num sentido mais amplo, representam as aspirações da sociedade.
Joseph Campbell, o conhecido estudioso da mitologia mundial, nos ensina que "o mito é a abertura secreta através da qual as energias inesgotáveis do cosmos são lançadas nas manifestações culturais humanas" e "a função primordial da mitologia e do rito sempre foi oferecer símbolos que fazem progredir o espírito humano." Assim, ao conhecer os símbolos e mitos do hinduísmo estaremos conhecendo um pouco mais desse povo e, mais do que isso, estaremos conhecendo a nós mesmos e nossos potenciais.
Na tradição hindu, Shiva é o destruidor. Na verdade ele destrói para construir algo novo, assim,
prefiro chamá-lo de "renovador" ou "transformador". Suas primeiras representações surgiram no neolítico (4.000 a.C.) na forma de Pashupati, o Senhor dos Animais. A criação do Yoga é atribuída a ele e o Yoga é uma prática que produz transformação física, mental e emocional, portanto, está intimamente ligado ao deus da transformação. Shiva é o deus supremo (Mahadeva), o pacífico (Shankara) e o benevolente, onde reside toda a alegria (Shambo ou Shambhu).
O TRISHULA

O tridente que aparece nas ilustrações de Shiva é o Trishula. É com essa arma que ele destrói a ignorância nos seres humanos. Suas três pontas representam as três qualidades da matéria: tamas (a inércia), rajas (o movimento) e sattva (o equilíbrio).
A SERPENTE
A Naja é a mais mortal das serpentes. Usar uma serpente em volta da cintura e do pescoço, simboliza que Shiva dominou a morte e tornou-se imortal. Na tradição do Yoga, ela também representa Kundaliní, a energia de fogo que reside adormecida na base da coluna. Quando despertamos essa energia, ela sobe pela coluna, ativando os centros de energia (chakras) e produzindo a iluminação (samadhi), um estado de consciência expandida.
GANGA

No topo da cabeça de Shiva se vê um jorro d’água. Na verdade é o rio Ganges ou Ganga que nasce dos cabelos de Shiva. Há uma lenda que diz que Ganga era um rio muito violento e não podia descer à Terra pois a destruiria com a força do impacto. Então, os homens pediram a Shiva que ajudasse e ele permitiu que o rio caísse primeiro sobre sua cabeça, amortecendo o impacto e depois, mais tranqüílo, corresse pela Terra.
LINGAM
Também chamado de linga, é o símbolo fálico de Shiva. Ele representa o pênis, o instrumento da criação e da força vital, a energia masculina que está presente na origem do universo. Está associado ao poder criador de Shiva. A palavra "lingam" significa "emblema, distintivo, signo".
O lingam é o emblema de Shiva. Na Índia, reverenciar o lingam é o mesmo que reverenciar a Shiva. Ele pode ser feito em qualquer material, embora o preferido seja o de pedra negra. Na falta de uma escultura, se constrói um lingam com a areia da praia ou do leito do rio; ou simplesmente se coloca em pé uma pedra ovalada.É comum, nos templos, se pendurar sobre o lingam uma vasilha com um pequeno orifício no fundo. A água é derramada constantemente sobre ele numa forma de reverência. A base do lingam representa a yoni, o genital feminino, mostrando que a criação se dá com a união do masculino e feminino.
DAMARU 
O tambor em forma de ampulheta representa o som da criação do universo. No hinduísmo, o universo brota da sílaba OM. É interessante comparar essa afirmação com a conhecido prólogo do Evangelho de São João: "No princípio era o Verbo (a sílaba, o som). E o Verbo era Deus. (...) Tudo foi feito por Ele (o Verbo) e sem Ele nada se fez." É com o som do Damaru que Shiva marca o ritmo do universo e o compasso de sua dança. As vezes, ele deixa de tocar por um instante, para ajustar o som do tambor ou para achar um ritmo melhor e, então, todo o universo se desfaz e só reaparece quando a música recomeça.
FOGO
Shiva está intimamente associado a esse elemento pois o fogo representa a transformação. Nada que tenha passado pelo fogo, permanecerá o mesmo: o alimento vai ao fogo e se transforma, a água se evapora, os corpos cremados viram cinzas. Assim, Shiva nos convida a nos transformarmos através do fogo do Yoga. O calor físico e psíquico que essa prática produz nos auxilia a transcender nossos próprios limites.
NANDI
Nandi é o touro branco que acompanha Shiva, sua montaria e seu mais fiel servo. O touro está associado às forças telúricas e à virilidade. Também representa a força física e a violência. Montar o touro branco, significa dominar a violência e controlar sua própria força.A palavra "Nandi" significa "aquele que dá a alegria". Sua devoção por seu senhor é tão grande que sempre se encontra sua figura diante dos templos dedicados a Shiva. Ele está deitado, guardando o portão principal.
LUA CRESCENTE
A lua, que muda de fase constantemente, representa a ciclicidade da natureza e a renovação contínua a qual todos estamos sujeitos. Ela também representa as emoções e nossos humores que são regidos por esse astro. Usar um crescente nos cabelos simboliza que Shiva está além das emoções. Ele não é mais manipulado por seus humores como são os humanos, ele está acima das variações e mudanças, ou melhor, ele não se importa com as mudanças pois sabe que elas fazem parte do mundo manifesto. Os mestres que se iluminaram afirmam que as transformações pelas quais passamos durante a vida (nascimento e morte, o final de uma relação, mudança de emprego, etc.) não afetam nosso ser verdadeiro e, portanto, não deveríamos nos preocupar tanto com elas.
Pashupati
Pashupati é uma das primeiras representações de Shiva e surgiu no neolítico, por volta de 4.000 a.C.. O nome significa "O Senhor dos Animais" (pashu = animais, feras, bestas; pati = senhor, mestre). Ele é representado com três faces, olhando o passar do tempo (passado-presente-futuro). A coroa em forma de cornos de búfalo evidencia a proximidade de Shiva com esse animal que representa as forças da terra e da virilidade. Pashupati está sentado em posição de meditação, o que nos faz pensar que as técnicas meditativas já existiam naquele período. Os quatro animais ao seu redor são o tigre, o elefante, o rinoceronte e o búfalo. Por ser o Senhor das Feras, Pashupati podia meditar entre elas sem ser atacado. Mas, há um outro simbolismo.
Esses animais podem representar nossas emoções e instintos mais básicos como o orgulho, a força bruta, o ódio e a sexualidade desenfreada. Pahupati, então, é também aquele que domou suas feras interiores, suas emoções e convive sabiamente com elas.
O Shiva Purana, conta que os deuses estavam em luta com os demônios e, como não estavam conseguindo vencê-los, foram pedir auxílio a Shiva. Shiva lhes disse: "Eu sou o Senhor dos Animais (Pashupati). Os corajosos titãs só poderão ser vencidos se todos os deuses e outros seres assumirem sua natureza de animal." Os deuses hesitaram pois achavam que isso seria uma humilhação.
E Shiva falou novamente: "Não é uma perda reconhecer seu animal ( a espécie que corresponde no mundo animal ao princípio que cada deus encarna no plano universal). Apenas aqueles que praticam os ritos dos irmãos dos animais (Pashupatas) podem ultrapassar sua animalidade."
Assim, todos os deuses e titãs reconheceram que eram o rebanho do Senhor e que ele é conhecido pelo nome de Pashupati, O Senhor dos animais. Esse textos nos mostra a ligação do Yoga primitivo com o Xamanismo.
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